Situado na margem do rio São Francisco, no Oeste da
Bahia, a 777 km de Salvador, o município de Bom Jesus da Lapa tem 63 mil
habitantes, com mais de 12 horas diárias de sol e temperatura que sempre
beira os 35 graus, já está produzindo 158 megawatts (MW) com o calor do sol. É
energia suficiente para abastecer uma cidade de 166 mil residências, 10 vezes a
própria Bom Jesus da Lapa, com 16 mil domicílios.
A cidade é uma das referências do país no turismo
religioso, que recebe anualmente cerca de 1,8 milhão de romeiros,
conhecida como a Capital Baiana da Fé, e somando a isso, o Projeto de
irrigação Formoso, gerido pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São
Francisco e do Parnaíba (Codevasf,) teve incremento de 58% no valor bruto da
produção em 2016, passando a ser o maior produtor de banana do Brasil. E no
início do mês de junho de 2017 a cidade passou a abriga a primeira grande
usina solar do Brasil, com investimentos bilionários da indústria da energia
renovável, passando a ser reconhecida também como a Capital brasileira da
energia solar.
Só em Bom Jesus da Lapa, a italiana Enel Green Power,
dona do empreendimento, investiu US$ 175 milhões, algo em torno de R$ 542
milhões. Em pouco mais de um ano, 500 mil painéis solares passaram a cobrir uma
área de 330 hectares, o equivalente a 462 campos de futebol. Nesse período, a
cidade sertaneja, acostumada com o vaivém dos fiéis e com cifras bem mais modestas,
passou a conviver com uma mistura de idiomas.
No auge da obra, foram contratados mais de mil
trabalhadores para o empreendimento. Por estar ao lado da cidade, não houve
necessidade de construir alojamentos, como ocorre em grandes projetos. Além
disso, a estrutura de hotéis existente para os fiéis que visitam o santuário de
Bom Jesus da Lapa ajudou muito na acomodação dos operários. Ainda assim, novos
hotéis e restaurantes foram inaugurados para atender à demanda, que deverá
continuar firme por mais algum tempo.
Como a cadeia de produção no Brasil ainda é incipiente,
os equipamentos para montar o parque solar vieram de várias partes do mundo. Os
painéis que captam o calor do sol foram fabricados na China; os conversores
para transformar a energia solar na eletricidade que chega à casa dos
consumidores vieram da Itália; e a montagem da estrutura que permite a
movimentação dos painéis na direção do sol foi feita por espanhóis.
Até a chegada do parque da Enel, a economia local era
baseada na produção de banana, que dá a Bom Jesus o título de maior
produtora do Brasil, e no comércio voltado ao fiéis.
A economia local, no entanto, não é suficiente para
absorver a mão de obra da cidade. Quase dois terços dos moradores têm idade
entre 15 e 59 anos e sofrem com o desemprego e a falta de qualificação. Esse
foi um dos temas trabalhados com a Enel como compensação social pelo
empreendimento. As comunidades quilombolas que ficam próximas do projeto foram
beneficiadas com cursos de pedreiro, eletricista e corte e costura.
Mas, apesar de área disponível, a construção dos parques
já começa a inflacionar o preço da terra na região. Em Bom Jesus da Lapa, o
valor de um hectare de terra saiu de R$ 2 mil para R$ 20 mil.
O presidente da Enel no Brasil, Carlo Zorzoli, diz que a
vantagem do sertão nordestino, além do sol forte, é a abundância de terras que
não competem com o agronegócio. “Aqui tem espaço de sobra sem precisar desmatar
para construir as usinas”, diz o executivo.
Além do parque de Bom Jesus da Lapa, a empresa detém outros
três projetos na região: Ituverava (254 MW) e Horizonte (103 MW), na Bahia, e
Nova Olinda (292 MW), no Piauí. Os três entram em operação até o fim deste ano,
colocando a empresa na liderança da produção solar no País, com 807 MW
instalados.
O ano de 2017 será um marco para a energia solar no
Brasil. Até dezembro, o País terá o seu primeiro gigawatt (GW) vindo da energia
solar. Isso significa quase uma hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, cuja
represa está no menor nível da história. “Há hoje no mundo entre 25 e 30 países
com essa capacidade instalada. Estamos longe da liderança, mas saímos da
lanterninha”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar
Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia. Com informações do jornal O Estado de
São Paulo.



